“(…) O acto de cantar é um acto de alegria, um acto de resistência à necessidade de nos deitarem abaixo.”

Em parceria com o clube de fãs alemão, Proudestmonkeys.de, traduzimos a entrevista que fizeram a Dave Matthews.

Proudestmonkeys: Apesar do grande sucesso nos Estados Unidos, o Big Whiskey não recebeu nenhum dos dois Grammy para que estavam nomeados. Ficaram desapontados com isso?

Dave Matthews: Não, os Grammy estão um pouco fora do alcance do meu pensamento. Soube bem [estar nomeado] porque era este álbum que estava nomeado. Apesar da forma como pode ser visto, este é o meu melhor álbum. A melhor parte foi terem-no nomeado. Foi uma espécie de surpresa. Diverti-me imenso quando actuámos lá e eu acho que estivemos muito bem. Foi tudo muito divertido, cada nota. Estava a conduzir para o estado de Washington com a minha família quando tive a ideia dos músicos irem aparecendo a tocar. Não seriam necessariamente famosos, mas seriam pessoas com que já tivéssemos trabalhado. Odiei a ideia de que Taylor Swift ou outras estrelas começassem a aparecer – seria horrível. Quando estávamos a ensaiar disse “Não se aperaltem, vistam-se como estão”. E eu queria que o Carter tivesse um momento de glória com a ideia de a bateria a abrandar.

Proudestmonkeys: O álbum Big Whiskey foi um grande sucesso nos EUA mas não na Europa. O que correu mal? Foi a produtora, o management ou é simplesmente um gosto musical diferente?

Dave Matthews: Nós temos uma grande popularidade nos EUA, mas o nosso sucesso acontece apesar da produtora. O que nós precisamos de fazer – assim como fizemos nos EUA – é actuar ao vivo. Porque acho que assim podemos crescer lentamente. Quando começámos nos EUA nós não conseguíamos arranjar uma produtora, não conseguíamos arranjar nada. Então, desistimos disso (da Europa). Eu não penso no nosso estilo ou porque não temos sucesso em diferentes partes do mundo. Neste momento está a crescer, mas não se deve ao um single ou à rádio. A única forma que encontro para ganharmos os corações das pessoas que não nos viram actuar ao vivo, é tocar para elas. Assim, as pessoas pensam “Isto é diferente. Não estava à espera”. De certa forma, esta é uma banda bizarra.

Proudestmonkeys: Parece que não existe nenhum plano. Como surgiu a ideia de fazer uma tour na Alemanha outra vez?

Dave Matthews: Quando vim com o Tim (2007) e com a banda no ano passado, começámos a sentir que há um grupo pequeno, mas crescente, a seguir-nos. A Warner está a fazer um trabalho muito bom, tendo em conta que nós somos um desafio. É uma tarefa difícil perceber uma canção e descrever o que somos. Uma música tem um pouco de folk, mas a próxima já é poderosa. Se as vendermos como a última, todos dirão “Eu não gosto desta música”. Mas se ouvirem a outra, até poderão gostar da banda e pode abrir os olhos e poderão até gostar da primeira música.

Eu penso que é o princípio do “quebrar do gelo” para nós. E é isso que precisamos de fazer. Temos de esquecer a possibilidade de encontrar um caminho fácil. E é mais divertido fazer as coisas assim. E eu não quero parar de tocar para as pessoas que nunca me ouviram. Também não quero deixar de ser novo para algumas pessoas porque é diferente tocar perante um público que nunca te ouviu – é muito bom. E para nós também, mesmo que não gostem de nós. É do género “O que é que se está a passar?” Mesmo que não se estejam a divertir, dirão “O que se está a passar? Eles (a banda) estão-se a divertir!” – e isso é contagioso, acho eu.

Proudestmonkeys: Nos EUA, vocês tocam perante grandes audiências enquanto que aqui vocês atraem possivelmente quatro mil fãs. É diferente tocar para um público aqui que não está tão familiarizado com as letras?

Dave Matthews: Eu não me importo que as pessoas oiçam (somente). É simplesmente uma situação diferente. Não temos de mudar o que estamos a fazer. A comunicação vai ser diferente. Mas eu só saberei qual vai ser a mudança quando o concerto começa – quando vejo as pessoas.

Proudestmonkeys: Há alguma diferença particular entre os públicos daqui e dos EUA?

Dave Matthews: Nos EUA o nosso público tende a ser muito barulhento. Todos cantam e quase que se transforma num sentimento de comunidade. Barulhentos, muito envolvidos, muito exigentes. O que eu descobri, talvez devido à pouca familiaridade connosco, foi que o público aqui ouve mais. No ano passado, quando estivemos a tocar nalguns festivais de Verão, foi divertido. Começávamos com cerca de 500 pessoas que te conheciam e devagarinho conseguia-se ver o público a juntar-se à medida que o concerto avançava; e no final, toda a gente ficava “Wow, o que foi aquilo?”Alguém que ia comprar uma salsicha a 150 metros de distância e a sua cabeça virava. Eu gosto quando as pessoas param. Depois, caminham até ti para ouvir, a perguntar à pessoa ao lado “O que é isto? Quem são?” Ou então estão mesmo à frente à espera da banda que se segue, com piercings na cara, à espera que alguém apareça e grite “assassino sangrento” – como o Chris Cornell. Mas no final, vê-se os olhos abertos – é disto que se trata. Eu deito a minha língua de fora e fecho os olhos porque eu quero que as pessoas saibam porque toco música. Mesmo que cante sobre morte ou tristeza… É pela alegria, é uma saída. É esta a minha música. A minha música não é uma queixa, opressão ou raiva. Mesmo que seja liricamente acerca destas temáticas, o acto de cantar é um acto de alegria, um acto de resistência à necessidade de nos deitarem abaixo. É isso que eu acho que pode ser contagioso. E então, as pessoas podem ouvir o CD e dizem “Agora vejo o que eles estão a dizer”.

Proudestmonkeys: Uma das imagens de marca da DMB é a mudança de alinhamento. Quando e como é que as arranja?

Dave Matthews: (a segurar uma folha com o que seria presumivelmente todas as músicas de DMB juntamente com algumas músicas de cover) Eu tenho uma lista de canções que queremos tocar e eu percorro-as. Há algumas que toco bastante e com as quais estou confortável, por isso temos sempre os alinhamentos que toquei mais recentemente. Nos EUA, olho para a noite anterior ou para a semana que passou porque eu não quero que seja demasiado parecido com o último concerto. Também olho para a lista do que toquei no ano passado naquele local porque ninguém quer ver exactamente o que viram no ano anterior. Mas aqui acho que devo tocar coisas novas. Mas também há a probabilidade de muitas pessoas quererem ouvir coisas antigas. Então eu tento e misturo as coisas que têm muito de improviso e tornam o alinhamento poderoso. Eu não quero aparecer e tocar uma data de sucessos porque aqui não são sucessos.

Proudestmonkeys: Há muitas pessoas que vêm a diferentes concertos aqui…

Dave Matthews: Então eu vou tentar não me repetir muitas vezes (a sorrir).

Proudestmonkeys: Falemos de uma música como a “Big Eyed Fish”…

Dave Matthews: Não a tocamos há anos – talvez seja uma de que gostes…

Proudestmonkey: …ou a “Sweet Up and Down”.

Dave Matthews: Eu adoro a “Sweet Up and Down”. Não tocámos, mas ensaiámo-la. Também temos de tentar trazê-la de volta.

Proudestmonkeys: Seria porreiro se a trouxessem enquanto cá estivessem… O Bruce Springsteen, por exemplo, tem um lugar no alinhamento para pedidos que ele escolhe dos cartazes do público e toca espontaneamente. O vosso público tem alguma possibilidade de alterar o alinhamento?

Dave Matthews: (a rir) Ele provavelmente pensa: “Não posso tocar esta, não me lembro daquela – vocês (para a sua banda) lembram-se daquela?” Nunca pensei nisso, talvez comece a fazer isso, talvez seja algo que eu deva fazer.

Proudestmonkeys: Se 1000 pessoas levantassem um cartaz a pedir uma canção…

Dave Matthews: Às vezes faço o oposto, se vejo milhões de cartazes a pedir uma canção, então eu paro de tocá-la (a rir), mas depois eventualmente tocá-la-ei.

Proudestmonkeys: Então, quem cria os alinhamentos?

Dave Matthews: Sou eu e depois apresento-a à banda, eles olham para o alinhamento, principalmente o Carter, e ele dirá “Isso é capaz de ser duro. Dá-me um pequeno descanso aqui”, se os braços deles estiverem doridos. Eu escrevi-a às 16h14 (o Dave segurava o alinhamento no seu iPhone, sendo que o concerto começava às 20h00). O Carter pediu para tê-lo mais cedo, visto que não tocávamos desde Outubro e não costumamos ensaiar – esse é o nosso problema…

Proudestmonkeys: Podemos vê-lo?

Dave Matthews: Eu não quero tirar a surpresa…

Proudestmonkeys: Como é que se mantém em forma ou cuida da sua voz com este plano exaustivo para a tour?

Dave Matthews: (a segurar numa caixa com sprays, rebuçados para a tosse, etc., pulverizando na sua boca) Obrigado por me relembrar. Às vezes eu perco a minha voz, mas dá-se a volta a isso. Eu sei cantar sem voz e sei cantar com voz. No começo de uma tour podemos praticar num dia ou dois, mas não o suficiente para aprender todas as canções, mais para nos habituarmos a estar juntos e a tocar música. Ontem tocámos cerca de dez canções, só para nos lembrarmos como são. Na primeira, é do género “Oh”, porque te esqueces – os músculos não estão lá e fizeste-o de novo. Por isso, a primeira música foi difícil. Mas na última, começamo-nos a sentir de novo. É mais para recordarmos a comunicação.

Proudestmonkeys: Vocês têm o hábito de ensaiar quando não estão em palco?

Dave Matthews: Se quero aprender uma canção ou trazer uma ideia para a banda, posso aparecer com uma guitarra. Mas quando ensaiamos antes dos concertos, muitas vezes vamos para o palco e tocamos juntos as canções e falamos. Também nos habituamos ao ambiente, não sermos surpreendidos pelo palco. Não estamos a ensaiar o concerto, mas mais a habituarmo-nos uns aos outros.

Proudestmonkeys: Existem planos futuros para a Europa, quer para a banda quer para Dave & Tim?

Dave Matthews: O nosso plano é fazer da Europa uma parte do nosso plano de tour, porque agora faz parte do nosso horizonte – o mesmo acontece com a América do Sul. Começou nos EUA, no sudeste, e cresceu. Cinco anos mais tarde tocámos na Califórnia. E depois o Canadá apareceu no nosso horizonte. O sentimento que temos agora para com a Europa é que há um público aqui que quer ouvir a nossa música. E sentimos que na Alemanha vendemos os nossos bilhetes. O nosso trabalho é chegar aqui e satisfazer as expectativas. De outra forma, não voltarão da próxima vez. Mas se satisfizermos as expectativas – que esperamos fazê-lo – e depois excedê-las, depois dirão “Wow, da próxima vez, temos de voltar e não me posso esquecer de trazer os meus amigos.” É desta forma que podemos ganhar um público. Mas não temos datas nem nada.

Proudestmonkeys: A internet ajuda-os a tornarem-se mais populares por aqui?

Dave Matthews: Quando a questão apareceu “as pessoas estão a gravar os concertos”, nós dissemos “E então? Isso só nos ajuda.” Dentro do mesmo espírito, a internet jogou a nosso favor porque as pessoas podem ouvir-nos. Não estou preocupado se as pessoas se apropriam da nossa música e não receber por isso – eu já recebo demais (a rir). Então, eu fico contente com isso. Nos EUA, há sempre uns microfones grandes e penso que estes concertos aqui também deveriam ter alguns microfones porque o público não vai ser barulhento – Tem-se melhores concertos (a rir).

Proudestmonkeys: Com o Jeff Coffin vocês têm um novo saxofonista desde que o membro fundador LeRoi faleceu. Qual a diferença que isso faz?

Dave Matthews: O Jeff apareceu inicialmente como um amigo quando o Roi se aleijou. O Roi e o Rashawn tinham criado uns arranjos na secção de metais, por isso tivemos este lugar para preencher durante algum tempo. O Jeff estava livre e apareceu com o seu grande coração e com tudo o que tinha e trouxe a sua voz. Ele não tentou imitar o Roi. Eu queria que ele fizesse as suas coisas. Quando o Roi faleceu, fazia-me sentido manter o Jeff. Não há melhor saxofonista no mundo, tecnicamente falando. Mas ele tem uma voz diferente. E eles são músicos diferentes. Por isso, para mim não é um contra o outro. Acho que o Jeff está a fazer um trabalho espectacular na forma como se está colocar nesta situação difícil. Ele é um músico fenomenal e eu adorava-o nos “Bela Fleck and the Flecktones”. Eu gosto dos seus próprios discos.

Proudestmonkeys: Ele vai ficar na vossa banda nos próximos anos?

Dave Matthews: Bem, ele vai ficar connosco durante este ano e eu acho que gosta de tocar connosco. Muito embora haja muito de improviso em tudo o que ele faz, há uma grande abertura em tudo o que ele faz. É porreiro. Não é que ele tenha que tocar connosco para sempre – ninguém tem de ficar. Mas ele gosta deste ambiente e eu gosto muito de tê-lo connosco – ele é uma força muito positiva. Haverão sempre críticas, mas eu não posso trazer ninguém dos mortos; e eu não trouxe o Jeff para a banda como substituto. Eu trouxe-o para a banda como Jeff.

Proudestmonkeys: Iremos ter as teclas de volta?

Dave Matthews: Butch (Taylor) era um músico maravilhoso. Ele apareceu na banda num ponto em que estávamos à procura de outro som, não um teclista ou um guitarrista. Nós gostaríamos de ter o Tim, mas ele não estava sempre lá. Depois pensámos “Vamos trazer outra voz”. Nós tivemos um teclista nos primeiros tempos de banda e o Butch estava disponível. Ele primeiro juntou-se à banda quando estávamos a fazer o álbum Crash para fazer algumas coisas nas teclas e eu adorei aquele som. Por isso, introduzimo-lo na banda. Foi a sua escolha, a sua própria satisfação, o seu próprio sentimento de pertença ou de não pertença que fê-lo seguir em frente. O Tim sabia que eu sempre quis que ele fizesse parte da banda e quando lhe perguntei ele disse “Ok”. Foi só uma coincidência, anteriormente a isso, o Butch tinha dito “Eu quero seguir em frente”.

Proudestmonkeys: Vocês são uma banda politicamente activa e vocês apoiam bastante Barack Obama. Estão satisfeitos com o que ele está a fazer?

Dave Matthews: Como presidente tem de se ser um homem impaciente e ambicioso. Mas eu acho que há menos disso nele do que na maioria. O seu partido é muito difícil, por isso ele teve de chegar a acordo. Eu não esperava que ele movesse montanhas, mas eu espero uma mudança radical no domínio da possibilidade. E eu penso que – e disse-o quando ele se estava a candidatar – ele mudou profundamente o horizonte da política americana, somente por ter sido eleito. Eu não sou um homem de guerra, mas esse é o grande problema: conferiram-lhe duas guerras. Então, o que fazer nessa situação? Arruma-se as malas e vai-se embora? Eu tenho um problema com toda a história militar que governa muito da América. Imagino que se me sentasse numa sala com ele, ele também teria um problema com isso, mas lá ele está confrontado com “como fazer isto o mais rapidamente possível e bem”. Eu estou desiludido por não conseguirmos sair destas situações mais rapidamente. Estou desapontado com muitas coisas, mas continuo feliz por ele ser o nosso presidente e não o John McCain.

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