"Não sou um poeta perfeito"

A Proudestmonkeys.de teve novamente o prazer de entrevista o Dave Matthews, desta vez no âmbito de um Meet & Greet com Silke e Caroline. Podem ler aqui a tradução desta entrevista bem divertida.


“Não sou um poeta perfeito”

O nosso ‘Meet & Greet’ com Dave Matthews

20 minutos podem parecer uma eternidade: quando esperamos pelo autocarro, quando esperamos ao telefone com a companhia do telefone ou quando estamos na cadeira do dentista. Mas 20 minutos também podem voar quando estamos sentados no sofá à conversa com Dave Matthews.


Colónia, 28 de Fevereiro de 2010

Aqui estamos nós, eu e a minha irmã Caroline, à espera no bar das traseiras do ‘Palladium’ em Colónia. Olhamos nervosamente para os nossos relógios. Em vez de estarmos na frente da fila lá fora ou na primeira fila quando a Dave Matthews Band começar a tocar, desta vez, ao contrário do concerto de Amsterdão em 2009, deixámos os nossos ténis de corrida em casa. Kai, um colaborador da Warner Music, vai buscar-nos a este bar. Cinco perguntas colocadas espontaneamente numa rede social alemã (comparável com o facebook) fizeram-me ganhar este ‘Meet & Greet’. Há dias que não dormia e não consegui comer o dia todo.

Carregadas com três sacos com ‘merchandise’ de e para os fãs (e para nós), um macaco insuflável (o ‘proudest monkey’ da Caroline) e presentes para os membros da banda, seguimos o Kai para a área do ‘backstage’. Do segundo balcão que rodeia a plateia, podemos ver como Dave anuncia ‘Alberta Cross’, a banda de abertura. Agora é que nos apercebemos, vamos ser as últimas a falar com ele mesmo antes do concerto. Está a começar a ficar agitado. Seth (um assistente pessoal da banda), Kai e uma pessoa importante com um botão na sua orelha guia-nos para um pequeno corredor. Rashwan e Jeff passam por nós mas apressam-nos e não temos a oportunidade de lhes dizer olá. ‘Um encontro com a tua banda preferida’ foi a promessa para o ‘maior fã de DMB da Alemanha’ e isso incluía vê-los, certo?
Ou talvez não?


Enquanto a minha irmã está encostada à parede a conversar com o Kai, consigo ver de revés um homem animado a rir, com uma camisola de lã – passando despercebido pela Caroline –, a andar até nós. “É o Dave!” Eu acotovelo-a e ali está ele, a rir-se para nós.
Olá! Vamos lá para dentro…?Seguidos pela sua comitiva, entramos numa pequena sala com igualmente pequenos lugares para sentar: um sofá de dois lugares, duas cadeiras, uma pequena mesa coberta de coisas e uma prateleira com água. Os meus joelhos estão a tremer e tudo o que eu consigo pensar é “finalmente, já me posso sentar”. Eu coloco-me espontaneamente ao lado do Dave no pequeno sofá quase menosprezando as guitarras acústicas que já lá estavam. Ele afasta-as de mim. Eu ainda estou muito nervosa. Vamo-nos cumprimentar primeiro” diz a minha irmã, quando me apercebo que me esqueci do ‘passou-bem’ e dos beijos. Dave pede desculpa pelo seu barulho.

Dave: Peço desculpa por picar tanto hoje. Vocês são tão bonitas e eu nem sequer fiz a barba.

Silke: É para isso que o photoshop serve.


Dave: Photoshop, uh-huh.

Silke: Sim, eu posso fazer-te a barba no photoshop mais tarde.

Dave: Queres fazer-me a barba? Isso soa ‘funky’!

O Dave ri, não há nenhuma reserva para com os fãs.

Quando somos apresentadas como as vencedoras do ‘meet & greet’, é a primeira vez que ele vai ouvir as cinco questões que temos preparadas. Não o informaram das perguntas e também não nos deram nenhumas instruções. Os seguranças são mandados para fora, ficando somente o Seth, o Kai, o Dave e nós as duas. Primeiro, entregamos os ‘souvenirs’: 7 garrafas de vinho ‘Kröver Nacktarsch’ (Kröver naked ass), um vinho tradicional do vale do rio de Moselle, a nossa região.
O emblema demonstra um vinicultor a bater no rabo desnudado do seu filho. O Dave indaga: “Isto quer dizer que quando os alemães se embebedam, podem bater nos rabos dos seus filhos?” “Não, não”, explico eu, “apenas quando eles se portam mal e bebem vinho da pipa às escondidas.” O Dave parece gostar e surpreende-nos com uma piada:

Inicialmente pensava que todos os alemães era um bocadinho ‘freaky’!” Nós perguntamos porquê e ele explica, “Há alguns anos, quando eu conheci e falei com uma alemã, nem sequer me lembro de onde ou quando é que isso foi… o nome dela era… Nina… Nina Hagen?Nós, alemães, rimo-nos e defendemo-nos “A Nina Hagen é única, nem todos os alemães são assim.Isto ajudou a quebrar o gelo, todos se riem. “Mas eu gostava dela!”, acrescenta o Dave. “Ela explicou-me que os ‘Alemães aquecem devagarinho’… (e faz a careta de A+ da Nina Hagen, tentando imitar a sua voz rouca)…’mas depois ficam verdadeiramente funky’!” Mesmo que o Dave não se lembrasse do nome dela, todos teríamos reconhecido a Nina. Ele seria um grande actor. Ela ainda é viva?” pergunta ele. “Porque não seria?” replica o Kai. “Não sei, há pessoas a morrer todos os dias.” A minha irmã afasta as preocupações “Ela anda com homens vinte anos mais novos que ela, por isso penso que ela se está a dar bem”.


Dave: É bom saber. Não deveríamos começar agora com as perguntas?

Silke: Claro.
(Quase que me esquecia das perguntas. Penso que poderíamos ter ficado os 20 minutos na ‘converseta’ com o Dave) Primeira pergunta: As vossas canções tendem a deixar um grande espaço para interpretação e alguns dos vossos fãs discutem as letras em fóruns relacionados com a banda. Sente-se frequentemente mal entendido ou chateia-se quando um fã interpreta mal uma música?


Dave: Não, eu não fico chateado. Quero dizer, não sou um poeta perfeito. Eu dou o meu melhor, mas não sou um Shakespeare. Provavelmente, ele conseguiria ir mais directo ao assunto. No passado, eu deixava as minhas letras mais abrangentes no que diz respeito a temáticas como o amor por exemplo e depois, quando voltava a olhar para elas, era muito mais crítico pois dava por mim a pensar que não seriam suficientemente concretas. Basicamente, eu só tento atravessar um determinado sentimento, um estado de espírito e isso pode provocar um sentimento completamente diferente para outra pessoa. O que não tem problema. Quando descrevo uma situação, é mais acerca da melancolia ou o sentimento que advém dessa situação. Mas quando outra pessoa ouve uma canção minha e experimenta um sentimento diferente baseado nas suas próprias experiências, isso não é “errado”. Não existe uma interpretação “errada”. No novo álbum, tentei ser mais claro e existem muitas batalhas mente vs. sentimento nas canções, penso eu, e foi isso que quis fazer.
Mas como disse, eu não sou Shakespeare.

Silke: No entanto, tal como ele, também não se pode defender, seja em responder no imediato a um ouvinte seja a verificar cada fórum para esclarecer alguma coisa.


Dave: Eu cheguei a fazer isso uma vez. Houve um rapaz que não interpretou bem a ‘Last Stop’. Para mim, pessoalmente, aquela é uma canção sobre o sentimento de voltar à minha terra natal.
Para outros, é uma clara afirmação anti-guerra. Mas este rapaz disse que a canção era anti-semita e isso realmente deixou-me um pouco chateado. Mas esclarecemos esse assunto e ficou tudo bem. Essa foi a única altura em que eu senti que tinha de esclarecer alguma coisa. De qualquer das formas, a maioria das minhas canções são baboseiras [gobbeldy goop]…

Silke: E como é que se escreve gobbeldy… ?


Dave (ri): Não ligues, escreve m*rda (bullshit). Dave olha para as minhas notas enquanto eu escrevo “BS”, “Sim, isso mesmo”. (Toda a gente na sala se está a divertir. Desde esse dia que ainda não sei ao certo como se escreve aquilo que ele disse).


Silke: A Dave Matthews Band não só apoia muitos projectos sociais e “verdes”, como também são politicamente activos. Enquanto que os esforços políticos e sociais das bandas são amplamente aceites na Alemanha, eu leio muitos bloggers que se queixam de “demasiadas afirmações”. (O Dave olha para as minhas notas e sinto a necessidade de clarificar que “não é o que eu penso, é somente o que encontrei online” e continuo a seguir com o meu dedo no papel porque fico nervosa).


Silke: Eles perguntam “Porque é que o Dave não se cala e volta a tocar música novamente!” Não acha que à medida que apoia mais projectos que isso acarreta um risco maior de afastar os fãs que não pensam da mesma forma?”


Dave: Eu não me preocupo acerca de afastar os fãs. Quando faço uma afirmação, estou convencido que isso é correcto – pelo menos naquele momento. Posso olhar para trás para certas afirmações passado algum tempo e posso achar que o que apoiei não alcançou plenamente o seu objectivo, mas isso não faz com que seja uma decisão errada. Por exemplo, o Obama ainda não fez tudo o que eu esperava que ele fizesse até agora. Mas eu ainda estou convencido que ele faz um melhor trabalho que o Bush fez…”


Silke: …Ou que o McCain poderia ter feito.


Dave: Exactamente. Por isso a minha opinião ainda não mudou completamente e não me arrependo de uma afirmação que faço ou da decisão de apoiar o Obama ou certos projectos. Porque na altura em que eu fiz essas afirmações, estavam certas para mim. Em comparação com outros países onde a democracia se desenvolveu de forma diferente, nos EUA as pessoas misturam de vez em quando capitalismo com democracia. Alguns colocam a democracia nas suas bandeiras mas o que eles verdadeiramente apoiam descreve muito melhor o capitalismo do que a democracia. Podem não se aperceber disso porque é um problema geral dos estados em que o sistema é mais capitalista do que democrático. Eu pessoalmente utilizo bastante o meu direito democrático de falar o que penso. Se alguém decide não comprar um CD nosso por causa disso, isto também é uma afirmação política, fazendo uso do seu direito democrático. Ao não comprar um CD, não apoia a banda. Apesar de que ainda possa gostar da música e roubá-la noutro sítio qualquer, mas eu vou persegui-lo por isso, nah, eu não faria isso.


O sorriso do Dave é tão matreiro que nunca existe um silêncio incómodo entre as questões.


Silke: Algumas pessoas doidas colocam nomes de celebridades aos seus filhos. E algumas celebridades transformam-se em pessoas doidas com o passar do tempo. Quando o vejo a fazer “palhaçadas” em palco, por vezes penso quais serão as probabilidades do meu filho de 5 anos, Dave (Dave arregala os olhos enquanto eu continuo a ler) – cujo nome foi dado graças a si –, um dia se sentir embaraçado pela história do seu nome?”

O Seth ri e abana a cabeça quando eu digo “embaraçado”, como se mais ninguém se atrevesse a fazer essa pergunta ao grande Dave Matthews.


Dave: Bem, se eu fizer asneira, isso será um problema das mães malucas, não achas? (O Dave lança um olhar desafiante. Eu tento colocar a minha cara séria, mas não resulta porque toda a gente à minha volta se está a rir.) Agora a sério, se ela não quer continuar a contar essa história, então ela pode mudar para um David diferente, como o Rei David ou como outra celebridade chamada David como… diz um…


Silke: David Bowie?

Dave: Sim, isso resulta (ri)

O Kai pergunta-me (em alemão) se o David tem um nome do meio e eu explico a toda a gente (novamente em inglês) que considerei ‘Matthew’ como nome do meio, mas que isso me pareceu demasiado “arriscado”. Eu devolvo ao Dave o olhar desafiante que está ainda muito divertido.


Dave: Mesmo que o nome fosse David Matthews, isso continua a ser muito comum. Aposto que existem 100 Dave Matthews só em Nova Iorque, provavelmente têm uma página cheia deles, por isso não me preocupava muito.


Silke: A minha próxima pergunta é acerca de família. Muitos fãs perguntam-lhe qual a influência que cada um de vós tem no alinhamento. Como mãe, eu pergunto-me qual a influência que a sua família tem no planeamento da tour? Tentam planear conforme datas de aniversários de casamento ou de aniversários das crianças, etc., ou isso nem sequer é discutido?


Dave: Sim, claro que é. Tentamos, tanto quanto possível, envolver as nossas famílias no planeamento e tê-las por perto e para mim isso é de grande importância e vai ganhando cada vez mais importância à medida que a família vai ficando mais velha. Mas isso é realmente o tópico de maior importância para mim neste momento, com que tenho de lidar estando tão longe da família. Todos estamos. Aqui na Europa estamos tão longe deles enquanto que nos EUA por vezes as nossas famílias conseguem acompanhar-nos ao longo da tour de verão, agora estamos a lidar com o facto de não os vermos durante um mês inteiro e é muito difícil não os termos por perto. Eu sinto muita falta dos meus filhos, como podes imaginar. (ele vira-se para mim porque agora sabe que eu também tenho um filho. Com uma voz calma e triste diz-me o seguinte, como se tivesse de enfatizar o que vai dizer) Eu sinto muita falta dos meus filhos e mulher. É um assunto muito emocionante para mim, especialmente vinte minutos antes de entrar em palco, onde o mais importante deve ser o facto das pessoas passarem um bom bocado.

O rapaz com o aparelho na orelha volta e dá-nos mais dois minutos. Temos de decidir entre fazer a quinta questão rapidamente ou termos o nosso tempo para dizer adeus. Parece-nos mais importante acabar a entrevista de uma forma positiva, especialmente depois da última questão emotiva. Assim, sugeri ao Dave que saltássemos a última questão para que ele pudesse assinar posters, camisolas e outras coisas que prometemos aos nossos amigos do clube de fãs. Ele sente-se de alguma forma aliviado e pergunta, muito profissional, para quem é que são as diferentes coisas. Apesar dos assistentes ficarem um pouco agitados, o Dave permanece calmo e sugere mesmo levar os posters aos outros membros da banda para que eles possam assiná-los. Mas como eles já estavam a preparar o concerto, esta ideia é recusada, pelo qual o Dave pede desculpa. É pena, mas não podemos ver nenhum dos outros membros da banda.









Pelo menos, o prato da bateria do meu amigo baterista Bastis vai ser assinada pelo Carter e o Kai promete que vai tentar apanhá-lo antes do concerto. Todos ajudam a colocar as coisas nos sacos para que possamos realmente despedir do Dave. Nervosamente, pé ante pé ele pergunta à pessoa que ‘dá tempo’ se “já captou algumas reacções?”. De quem?” Dave: “Bem, do público. Como estão a ser as reacções até agora?”. Parece mesmo que ele tem medo do palco o que o torna ainda mais adorável aos nossos olhos. Mais alguns beijinhos nas bochechas, esquerda e direita, e o Dave dá-nos um longo abraço e até nos agradece a conversa simpática e as questões interessantes.

Distância? Atitude de estrela? Delicadeza falsa? Não se encontra nada disto em Dave Matthews. Para nós, ele foi uma estrela para os nossos olhos, um ser humano com arestas por limar que demonstra as suas emoções. Tal como em palco, rapidamente o seu riso se transforma em tristeza, piadas parvas em sarcasmo. Não parece que o Dave se importe em deixar boas impressões, ele é simplesmente ele próprio: não sem dúvidas, mas com uma confiança descontraída. Mais tarde, em palco, ele aparece-nos como se fosse um bom amigo, cuja grandeza emocional pudemos experimentar nuns inesquecíveis 20 minutos.


A "famosa" Nina Hagen:

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